O hino a Nossa Senhora da Graça é uma canção de veneração à Virgem Maria invocada sob esse título por motivação popular, diferindo-se das devoções marianas dogmáticas ou decorrentes das prováveis aparições, segundo a fé católica. Originada na Inglaterra, no século XVI, essa devoção mariana é particularmente forte em diversas regiões de língua portuguesa, como Portugal e Brasil, podendo seu hino de referência variar conforme a localidade, mas geralmente incluindo louvores e preces à Nossa Senhora da Graça, pedindo sua intercessão e proteção.
No âmbito local, tal invocação mariana é bicentenária, originada às margens do Mearim em seu baixo curso, a algumas léguas próximas à sua foz, pela povoação nascente multiétnica e religiosa. Teve seu desenvolvimento na população marcadamente católica em sua espiritualidade, com manifestações práticas intensificadas no raiar do século XIX, a partir dos feitos de uma pequena comunidade liderada pelo português Lourenço da Cruz Bogéa.
O Hino de Nossa Senhora da Graça do Arari é parte da devoção a católica arariense, que adotou a Maria Mãe de Jesus como padroeira do lugar, invocada sob o título de Nossa Senhora da Graça. A devoção local não deve ser confundida com a invocação e devoção a Nossa Senhora das Graças, relacionada às aparições da Virgem Maria a Santa Catarina Labouré, em Paris, na França, no século XIX.
Também conhecido como Hino da Padroeira de Arari, foi escrito e musicado pela Irmã Auzira Amoroso, uma freira franciscana da Itália que teve parte da sua vida religiosa na cidade de Arari, servindo na Paróquia Nossa Senhora da Graça, na segunda metade do Século XX. Na época, sua congregação tinha um convento instalado no edifício hoje conhecido como Casa de Camilo Cordeiro, localizado ao lado do Hospital Municipal, na Praça do Cruzeiro.
A religiosa compôs e cantou pela primeira vez o hino, que se tornaria um dos símbolos católicos do lugar, sendo ainda um dos mais emblemáticos poemas da literatura local. Em sua obra, a freira distribuiu em versos e poucas estrofes a fé do povo católico e sua devoção à “Mãe de Deus”. Desde então, a peça literária e musical é entoada anualmente, de 6 a 15 de agosto, durante a novena e dia da festa solene do Festejo de Nossa Senhora da Graça do Arari.
HINO DA PADROEIRA
Senhora da Graça, rogai por nós.
Senhora da Graça, olhai por nós.
Para este povo fiel, que vos implora.
E unidos vos aclama auxiliadora.
A fé de vossos filhos, ó mãe querida.
Protegei nos caminhos de nossas vidas.
Guardai-nos todos fiéis à santa Igreja.
Unidos sempre a Cristo nesta peleja.
Virgem aparecida, de nossa terra.
Obtendo-nos as graças, que o céu encerra.
Abençoai Arari e nossos lares.
Aos pobres e aflitos de tantas dores.
Senhora da Graça, abençoai-nos.
Dos males desta vida, socorrei-nos.
Quando um dia o Pai chamar por nós,
Senhora da Graça, rogai por nós.
O Hino da Padroeira, como também é conhecido, é uma peça de valor literário, teológico e cultural. Ao mesmo tempo, é oração e canção, súplica e louvor, sustentado por uma tradição viva que une o povo católico de Arari à sua padroeira, Nossa Senhora da Graça.
O hino é mais do que uma oração ou peça litúrgica, é um símbolo da identidade religiosa e cultural de Arari. Une a comunidade católica em torno da figura de Nossa Senhora da Graça, celebrada com festas, procissões e devoções. A composição reflete a religiosidade popular local marcada por simplicidade, afeto e profunda espiritualidade.
ANÁLISE LITERÁRIA
O Hino da Padroeira é uma composição devocional dedicada à Nossa Senhora da Graça, padroeira da cidade de Arari, Maranhão. Com linguagem simples e profundamente afetiva, expressa a fé e a esperança do povo arariense na intercessão da Virgem Maria. É cantado como oração e louvação, evocando proteção, bênçãos e consolo.
Constitui uma composição desenvolvida por quatro estrofes de quatro versos cada, totalizando 16 versos. Sua métrica é simples e regular, favorecendo a musicalidade e a fácil memorização, como é comum em hinos religiosos. O ritmo segue uma cadência suave e reverente, que ajuda a criar um ambiente devocional. A construção poética não se apoia em artifícios linguísticos estéticos complexos, mas em uma beleza singela e direta, própria da tradição dos hinos religiosos populares com sua simplicidade lírica.
Sua rima é simples e predominantemente emparelhada e alternada (ABAB), como nós / vós e vida / querida, que reforçam a coesão sonora. Registra alguns casos de rimas imperfeitas ou o uso de paralelismo — como em “Senhora da Graça, rogai por nós” e “Senhora da Graça, olhai por nós” —, que reforçam o caráter de súplica e louvor do texto.
A repetição da invocação “Senhora da Graça” funciona como um refrão implícito, criando unidade temática e ênfase na figura mariana. Mantém um ritmo cadenciado que favorece o canto litúrgico. O uso constante de “Senhora da Graça” e “ó mãe querida” reforça o tom de súplica e intimidade. A repetição e o paralelismo criam um ritmo meditativo, quase litânico, ideal ao uso em celebrações religiosas. Seu tom é solene, mas também afetuoso, evocando tanto reverência quanto proximidade.
A linguagem clara, devocional e reverente tem predominância de termos acessíveis que mantêm a profundidade da mensagem religiosa. O uso de anáforas e repetições não é apenas estilístico, mas também litúrgico, facilitando a interiorização e a meditação (repetição devocional). Quanto à imagem simbólica, retrata Maria como “Virgem aparecida de nossa terra”, o que a localiza no coração do povo de Arari, numa personalização que evoca proximidade e pertencimento.
ANÁLISE TEOLÓGICA
Teologicamente, o hino se insere na tradição mariana católica popular, em que Maria é invocada como intercessora junto a Deus em favor dos fiéis. O título “Senhora da Graça” remete à concepção de Maria como Mãe da Misericórdia e Medianeira de todas as graças, reconhecida por seu papel singular na história da salvação e na vida espiritual da Igreja.
Ao pedir proteção “nos caminhos de nossas vidas” e fidelidade “à santa Igreja”, o hino reafirma a comunhão eclesial com Cristo e sua Igreja. “Aos pobres e aflitos de tantas dores” destaca a dimensão social da devoção mariana, voltada aos marginalizados e sofredores. A composição aproxima-se da teologia da misericórdia e da solidariedade, refletindo a dimensão social da fé cristã.
A última estrofe aponta para o papel de Maria na hora da morte, como guia e consoladora na passagem para a eternidade. O verso “quando um dia o Pai chamar por nós” aponta para o fim último da existência e a esperança escatológica da vida eterna, ancorada na fé cristã.
O hino não se destina apenas à contemplação estética, mas tem uma função pastoral, ao uso em momentos litúrgicos e celebrações comunitárias, reforçando a identidade religiosa e cultural do lugar A peça cumpre uma função de expressão de fé, identidade comunitária e louvor à Virgem Maria.
Começa hoje, dia 06 o festejo de Nossa Senhora da Graça em Arari, com o termino dia 15 do corrente mês.
Fonte: Arari.org.br
