O Festejo de Bom Jesus dos Aflitos é o maior evento religioso de Arari e um dos mais destacados regionalmente, inclusive reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Maranhão, pela Lei Estadual n.º 11.393, de 21 de dezembro de 2020 (a partir do Projeto de Lei n.º 487/2019, de autoria do deputado estadual Vinicius Louro, PL). Sua origem europeia remota a uma devoção católica que tem raízes em Portugal, a devoção ao Senhor Bom Jesus ou Senhor dos Aflitos.
De Portugal, a devoção foi levada aos países de colonização portuguesa, como Brasil, Angola e Açores. Sob essa invocação, venera-se a imagem de Jesus Cristo, especialmente em diferentes episódios de sua Paixão. Cultivada no Brasil desde o século XVII, organizou-se com os primeiros lugarejos que se tornaram cidades importantes.
Em Arari, a devoção iniciou-se com a primeira irmandade católica iniciada no lugar pela família do português Lourenço da Cruz Bogéa e outras lideranças comunitárias e religiosas da época, a Irmandade Nossa Senhora da Graça (também conhecida como Irmandade de Nossa Senhora do Arari e Nossa Senhora da Graça do Arari), na segunda década do século XIX, quando foi iniciada também a festa religiosa na então vila do Arari. Aqui, consolidou-se como devoção a Bom Jesus dos Aflitos, em uma adaptação regional da devoção geral referida.
A partir dos relatos de César Marques (1970), sabe-se do início construção da capela de Bom Jesus dos Aflitos, anexa à Igreja de Nossa Senhora da Graça, por iniciativa do mesmo Lourenço, que a levantou com recursos próprios, a partir de 7 de agosto de 1810, com licença do Bispo Dom Frei Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré. O mesmo líder religioso e comunitário, doo-lhe os paramentos e alfaias. A capela foi benzida em 1820, por despacho do mesmo bispo, datado de 17 de novembro do mesmo ano.
O evento público mais expressivo da devoção é o festejo anual, realizado de 5 a 14 de setembro, desde o início dos anos 2000 (com novenário e dia de festa solene). Antes, era realizado em apenas quatro dias, com tríduo preparatório e dia de festa solene. Paralelo à imagem de Bom Jesus dos Aflitos e ao festejo, um dos elementos mais emblemáticos da devoção é o Hino de Bom Jesus, que integra os atos religiosos em honra ao copadroeiro de Arari. O hino é presente, parcialmente, desde o início da década de 1960, com uma versão inicial reduzida e, integralmente, desde o início da década de 1980, com sua versão final ampliada.
Diferente do Hino de Nossa Senhora da Graça,, com composição de autoria única, a letra do Hino de Bom Jesus é uma composição arquitetada por vários autores, em pelo menos duas épocas diferentes.
A primeira estrofe “Cheio de graça e ternura / Com rosas por entre a cruz / És o emblema da ternura / Ó, querido Bom Jesus”; o refrão “Vieste de puro amor / O amor que é só luz / Santifica esta cidade / Ó, querido Bom Jesus”; e a segunda estrofe “E na dor que me crucia / Sede para mim a luz / Dai-me paz na hora eterna / Ó, querido Bom Jesus” é o trecho mais antigo do hino, anterior a 1965, de autoria desconhecida e musicada pelo maestro José Gonçalves Martins.
A segunda parte foi composta em 1983, a pedido do Pe. Brandt, que o fez a alguns então professores do Colégio Arariense e colaboradores paroquiais. A terceira e a quarta estrofes, “Na caminhada desta igreja / Sede aquele que conduz / Os que buscam vosso reino / Ó, querido Bom Jesus” e “Pela salvação dos homens / Quiseste morrer na cruz / Prova de infinito amor / Ó, querido Bom Jesus” são de autoria da Prof.ª Creuza Ribeiro.
A quinta estrofe, “Carregando a cruz nos ombros / Sofrimento que foi luz / És nosso irmão na dor / Ó, querido Bom Jesus” é de autoria da Prof.ª Tonica Pereira. A sexta estrofe, “Carregando a cruz nos ombros / Sofrimento que foi luz / És nosso irmão na dor / Ó, querido Bom Jesus” seria possivelmente do punho de Conceição de Maria Fernandes (Conci).
A sétima estrofe, “Na defesa dos humildes / Que carregam sua cruz / Sede nosso defensor / Ó, querido Bom Jesus” é de autoria da Prof.ª Domingas Licá. Há ainda uma oitava estrofe “A Santa Virgem Maria / Que ao Cristo deu à luz / Dai a Paz aos nossos lares / Ó, querido Bom Jesus”, de autoria de Camilo Cordeiro. Embora não se encaixe no contexto das demais estrofes, tanto pelo conteúdo quanto por questões linguísticas e alinhamento teológico com as demais partes da obra, por respeito ao autor e valorização de sua contribuição, continuou na composição por vontade do Pe. Brandt.
Missão e compromisso social: “Na defesa dos humildes / Que carregam sua cruz” — aponta para a dimensão profética da Igreja: estar ao lado dos pobres e sofredores, como Jesus. Essa estrofe conecta fé com justiça social, ecoando a opção preferencial pelos pobres.
O Hino de Bom Jesus dos Aflitos é uma obra de fé e poesia, que traduz o sentimento de um povo que encontra em Cristo não apenas o redentor, mas o companheiro na dor, o guia na caminhada e o defensor dos humildes. Sua linguagem simples e tocante revela a profundidade da religiosidade arariense e a beleza da tradição oral e musical que atravessa gerações. Mais que uma composição litúrgica — é uma síntese poética da fé cristã vivida no chão de Arari. Une doutrina e devoção, cruz e ternura, missão e esperança. É uma oração cantada que revela o rosto de um Cristo próximo, compassivo e comprometido com os humildes.
Fonte: Arari.org.br
Foto: Sydenilson Santos
