Os Primórdios de Arari, por onde começou?

Por Adenildo Bezerra

A história de Arari não começa com a construção da Capela de Nossa Senhora da Graça, nem com a criação da freguesia ou da vila. Suas origens são muito mais antigas e remontam aos primeiros grupos humanos que ocuparam a Baixada Maranhense, milhares de anos antes da presença europeia. O território onde hoje se encontra o município foi moldado pela ação da natureza e pela presença contínua de povos indígenas, que fizeram do rio Mearim, dos lagos e dos campos inundáveis o espaço de sua sobrevivência e de sua cultura.

A posição geográfica de Arari explica, em grande medida, sua ocupação. Situada no baixo curso do rio Mearim, próximo à Baía de São Marcos, a região sempre constituiu um importante corredor natural de circulação. O rio funcionava como uma verdadeira estrada, ligando o litoral ao interior da capitania. Muito antes da abertura de caminhos terrestres, eram as águas do Mearim que permitiam o deslocamento de pessoas, mercadorias e informações.

Segundo o antropólogo Olavo Corrêa Lima, diversos povos indígenas habitaram essa região, entre eles os Gamelas, os Tabajaras, os Guajajaras e os Mearins. Esses grupos desenvolveram formas próprias de organização social, agricultura, pesca, caça e produção cerâmica, adaptadas ao ambiente singular da Baixada Maranhense. Os rios, igarapés e lagos não eram obstáculos, mas elementos fundamentais de sua existência.

A arqueologia confirma essa ocupação ancestral. Na região de Boca do Campo, no povoado Moitas, próximo à Estrada de Ferro Carajás, foi identificado um importante sítio arqueológico. As escavações revelaram grande quantidade de fragmentos cerâmicos e outros vestígios da presença humana. Estudos indicam que parte desse material possui mais de oitocentos anos, demonstrando que o atual território de Arari já era ocupado muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Essas descobertas reforçam que a história local não se inicia com os documentos coloniais, mas possui raízes profundas na ocupação indígena.

Quando os franceses chegaram ao Maranhão, em 1612, para fundar a França Equinocial, encontraram uma vasta rede de aldeias indígenas distribuídas pela ilha de Upaon-Açu, por Tapuitapera, Icatu, Cumã e por toda a região banhada pelo rio Mearim. Embora os cronistas franceses, como Yves d’Évreux e Claude d’Abbeville, não mencionem um povoado chamado Arari, seus relatos demonstram que toda a Baixada Maranhense era densamente conhecida e utilizada pelos povos indígenas, que mantinham intensas relações de circulação pelos rios.

Com a consolidação do domínio português, a partir de 1615, iniciou-se um lento processo de ocupação colonial das margens do Mearim. A Coroa Portuguesa distribuiu sesmarias, incentivou a implantação de fazendas e estimulou atividades agrícolas e pecuárias. Aos poucos, surgiram propriedades rurais voltadas para a criação de gado, o cultivo de mandioca, arroz e algodão, além da exploração dos recursos naturais abundantes da região. O rio permaneceu como principal via de transporte e comunicação, favorecendo o crescimento dos pequenos núcleos populacionais.

Foi nesse contexto que se formou o embrião de Arari. Diferentemente de cidades fundadas por ato oficial, seu crescimento ocorreu de maneira espontânea, impulsionado pela fixação de famílias, pelo desenvolvimento das atividades econômicas e pela intensa navegação fluvial.

Um marco decisivo desse processo ocorreu em 1806, quando o português Lourenço da Cruz Bogéa iniciou a construção da Capela de Nossa Senhora da Graça. O templo, concluído em 1811, tornou-se o principal centro religioso e social da comunidade. Em torno da capela instalaram-se moradias, casas comerciais e serviços, formando um povoado que rapidamente se consolidou como referência para toda a região.

A presença da igreja favoreceu a organização da vida comunitária e fortaleceu a identidade local. As festividades religiosas dedicadas à padroeira passaram a reunir moradores de diversas localidades do vale do Mearim, contribuindo para o desenvolvimento econômico e cultural do povoado.

Ao longo da primeira metade do século XIX, Arari consolidou-se como um importante entreposto comercial da Baixada Maranhense. A fertilidade de seus campos, a abundância de peixes, a criação de gado e a intensa navegação pelo Mearim favoreceram o crescimento da população e ampliaram sua importância regional. Esse desenvolvimento culminou com a emancipação político-administrativa da então Vila de Arari, por meio da Lei Provincial nº 690, de 27 de junho de 1864.

Assim, os primórdios de Arari devem ser compreendidos como um processo histórico de longa duração. Muito antes da construção da capela ou da criação da vila, seu território já era habitado por povos indígenas que deixaram importantes marcas materiais e culturais. Posteriormente, a ocupação portuguesa, as fazendas, a navegação pelo rio Mearim e a construção da Capela de Nossa Senhora da Graça transformaram aquele antigo espaço indígena em um dos mais importantes núcleos urbanos da Baixada Maranhense.

Conhecer essa trajetória é reconhecer que a história de Arari não pertence apenas ao período colonial ou imperial. Ela começa com os primeiros habitantes da região, atravessa séculos de transformações e continua viva na memória, na cultura e na identidade de seu povo. Valorizar esses primórdios é compreender que a formação de Arari resulta do encontro entre a riqueza da natureza, a presença ancestral dos povos indígenas e o trabalho das gerações que construíram, ao longo do tempo, a cidade que hoje ocupa lugar de destaque na história do Maranhão.

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