O CAMPO DO PADRE, RIBEIRA DO MEARIM

Em Arari, havia um campo que não era apenas campo. Era templo, palco e lar. O Estádio Ribeira do Mearim, nosso inesquecível Campo do Padre, guardava em seu chão de barro e suas traves de madeira quadrada um pedaço da alma arariense. Não tinha arquibancada, não tinha refletores modernos, mas tinha sol ardendo sobre os jogadores, tinha a poeira subindo a cada carrinho, pois só era usado no verão, e tinha o eco dos gritos de gol atravessando o Mearim e se espalhando pela cidade inteira.

Ali, onde hoje as casas se empilham, existia o coração pulsante de um Arari que respirava futebol. Não era só jogo. Era encontro, era festa, era rito sagrado dos finais de semana. Quem nunca se espremia junto ao muro alto ou escalava suas paredes como quem escala um sonho? Quem nunca correu do Seu Dico ou do Seu Luís Padre, zeladores firmes e silenciosos, guardiões daquele santuário esportivo? E quando eles surgiam do nada, era como se a travessura virasse tradição, a fuga era parte do espetáculo, uma dança de moleques apaixonados pela bola.

Nos dias de clássico, o campo virava arquibancada viva. Não havia divisão entre torcida e gramado, porque cada torcedor era parte do time, era jogador invisível que soprava a bola para dentro do gol. Nas cobranças de pênaltis, a galera fazia um paredão humano ao redor da área, como se cada olhar, cada reza, cada coração batendo forte, empurrasse a bola rumo à rede. E quando ela balançava, não existia barreira que segurasse o abraço coletivo, a invasão alegre, o delírio que transformava o Campo do Padre num redemoinho de sorrisos e emoção.

Era o tempo dos Onze Brasileiros, Independente, Nacional. Camisas que fizeram história, escudos costurados à mão, cada uniforme era uma segunda pele, um manto sagrado. E quando times como Sampaio Corrêa, Moto Club, MAC ou BEC, pisavam naquele chão de histórias, Arari virava capital do futebol. A torcida se acomodava à beira do campo ou atrás dos gols para ver de perto os craques que só conheciam do rádio. Ouvia-se os xingamentos de Seu Anselmo, que esbravejava quando a seleção de Arari jogava mal.

E era eternidade mesmo. Porque o Campo do Padre, embora derrubado, nunca foi apagado. Ele vive no cheiro da terra molhada de chuva antes do jogo, na nostalgia de cada arariense que viveu aquele tempo áureo. Vive na saudade de quem cresceu sonhando ser camisa 10 da seleção arariense e, mesmo sem fama ou fortuna, se tornou ídolo na pequena Arari, como, por exemplo, Gabelha, Zé Cantídio, Rildo, Garricha, Carneirinho, Edivaldo de Isidora, Aroucha, Baca, Cabo Zé Dico, Brabo, Edu, Basquete, Luís Carlos, e tantos outros, em diferentes gerações.

Hoje, onde antes havia gramado e traves de madeira, há ruas e casas. O campo se desfez em cimento e tijolos. Mas para quem viveu aqueles dias dourados, o Ribeira do Mearim segue intacto dentro da gente. No silêncio das madrugadas, se escutarmos bem, ainda dá para ouvir o eco distante de uma torcida vibrando, de uma bola sendo chutada, de um gol inesquecível sendo comemorado com alma, orgulho, suor e lágrima.

O Campo do Padre não morreu. Ele mora onde a memória e o coração de um povo se encontram. E enquanto houver um arariense para contar sua história, ele nunca deixará de existir.

Texto do Professor Adenildo Bezerra. Foto: Hilton Mendonça

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