Por: Adenildo Bezerra
O nome Tresidela tem origem na expressão portuguesa “trás da aldeia”, utilizada para designar o lugar que ficava do outro lado do rio do núcleo principal de uma povoação. Com o passar do tempo, a pronúncia popular transformou a expressão em “Tresidela”. Em Arari, porém, muita gente a chama de TRIZIDELA, forma que acabou se incorporando ao modo de falar dos moradores e à identidade do lugar.
Situada na margem esquerda do rio Mearim, à jusante, a Tresidela começou a se formar por volta do final do século XIX, quando algumas poucas famílias construíram suas casas naquele pedaço de terra cercado pelo rio, árvores e campos. Durante muito tempo, foi um lugar de poucas moradias e de uma vida marcada pelo ritmo das águas e das estações.
A agricultura teve papel importante em sua história. Até o fim da década de 1970, funcionou ali o Engenho São José, de propriedade de Seu Léo Pinto, conhecido empreendedor e pecuarista da região. A produção agrícola era tão significativa, especialmente a de arroz, que a Cooperativa Mista Arari-Anajatuba construiu um grande galpão para armazenar a safra. As ruínas dessa estrutura ainda permanecem de pé, silenciosas testemunhas de um período de intensa atividade econômica.
A Tresidela também era conhecida por suas melancias, cultivadas em abundância e apreciadas por toda a região. Às margens do Mearim, outro personagem marcava a paisagem: Seu José Chaves. Durante muitos anos, ele manteve um estaleiro onde construía embarcações artesanais, como os igarités. Seu trabalho estava diretamente ligado a uma época em que a navegação fluvial era parte essencial da vida de Arari, quando o rio servia de estrada, comércio e encontro.
Mas a Tresidela não era feita apenas de trabalho. Era também um território de frutas e lembranças. Havia mangueiras nativas por toda parte, além de sapotizeiros, ingazeiras, caramboleiras e outras árvores frutíferas. Nos tempos em que a cidade ainda mantinha uma relação mais íntima com o rio, muitos atravessavam o Mearim a nado ou de canoa apenas para apanhar mangas do outro lado.
E quando se fala em mangas, é impossível não lembrar de Seu Dodó. Dono de um grande pomar, ele se tornou personagem das histórias que atravessaram gerações. Bastava a molecada aparecer com pedras ou rebolos na mão, ou subir nas árvores em busca das frutas, para que ele surgisse reclamando e defendendo suas mangueiras. Ainda hoje, quem tem mais de quarenta anos costuma guardar alguma lembrança ou contar alguma história envolvendo Seu Dodó e suas mangas.
O tempo passou. A antiga localidade de poucas casas cresceu, ganhou ruas, residências, chácaras e espaços de eventos. A terra, antes abundante, tornou-se valorizada e, talvez, possua hoje um dos metros quadrados mais caros de Arari.
Apesar das transformações, a Tresidela conserva algo que não se mede em dinheiro. Nas tardes em que o rio segue seu curso tranquilo e o vento percorre as árvores que ainda resistem, permanece a sensação de que ali o passado continua presente, guardado nas memórias de quem viveu, trabalhou e construiu sua história naquela margem do Mearim.
Foto: Rede Social
