REMINISCÊNCIAS: pelas margens do Mearim e do Nema

Por Adenildo Bezerra

Tenho comigo umas lembranças de menino, de um tempo em que a vida corria devagar pelas margens do Mearim e do Nema. Vivíamos de um jeito rústico, ou, dito com mais justiça, de um jeito de sobreviver. Éramos muitos em casa. Papai e mamãe nunca tinham pisado numa escola, mas tinham coragem de sobra e disposição que não faltava nunca. Se viravam como davam, e o que se queria, no fim das contas, era simples: comer duas vezes ao dia. Nem sempre dava.

Cedo a gente aprendia a ajudar. Ia pra beira do Nema pescar de linha, e lá era fartura de traíra e de jandiá, e de outros peixes que só quem nasceu naquelas águas sabe nomear direito. Quando chegava a época do camarão, o instrumento era outro: litros de vidro, preparados com todo cuidado nosso. Quebrava-se o fundo com um vergalhão, devagar pra não rachar o resto, encaixava-se uma rolha no gargalo, amarrava-se um barbante numa boia na outra ponta. Pronto o litro. Aí era pegar o cofo, arrumar os litros dentro dele junto com o cuim, a isca que atraía os camarões, e sair rio ou igarapé adentro. Em poucas horas o cofo já pesava, cheio.

Tinha também o tempo das mangas, que era fartura de outro jeito. Atravessávamos o Mearim, ou íamos direto nas mangueiras de Seu Zuzu Sousa. Manga com farinha d’água era coisa boa, coisa que segurava fome por horas a fio. E assim seguia o dia: um vaivém constante rumo às mangueiras, quase todo dia o mesmo trajeto. A manga que passava um tempo abafada ficava mais suculenta, isso a gente sabia de cor.

Mas nem tudo era só necessidade. Tinha muito de diversão ali também, talvez mais diversão do que necessidade, se for pra dizer a verdade. Sair com a meninada toda pra pescar ou buscar manga era um dos maiores prazeres daqueles dias. Passávamos horas no mato, na beira do rio, na beira do igarapé. O Mearim e o Nema eram nosso ponto de encontro predileto, o lugar onde a infância acontecia de verdade. Voltava-se de lá com os olhos vermelhos de tanto mergulho, a pele meio cinzenta e lodosa do esmeril grudada no corpo. E aquilo, pra quem sabia ler os sinais, era a prova certa de que o dia tinha sido bom.

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